segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Cesare Pavese - A mania da solidão


Virá a morte e terá os teus olhos / esta morte que nos acompanha/ da manhã à noite, insone,/ surda, como um velho remorso/ ou um vício absurdo (...)


Assim começou Cesare Pavese o poema-título de Virá a morte e terá os teus olhos, obra formada de poemas breves, inspirados no amor infeliz do poeta pela actriz norte americana Constance Dowling e a ela dedicados; actriz que quando informada da morte do escritor, perguntou "Era escritor?". No ano transacto comemorou-se, por via de iniciativas de vária ordem, um pouco por todo o lado literato, blogosfera nacional incluída, através de não só mas sobretudo do excelente esforço de divulgação por Pedro Mexia , o centenário sobre a morte do poeta nado na província de Langhe, Santo Stefano Belbo, em Turim. O livro de que foram extraídos estes versos ficou mundialmente conhecido e aclamado como um dos grandes livros da poesia do século. XX, com o título Lavorare Stanca ( Trabalhar Cansa). Um título que foi justamente considerado por muitos um dos mais marcantes do escritor italiano. No entanto, a maioria dos seus leitores desconhece um detalhe que se lhe prende. O facto de, na madrugada de um dia em Fevereiro de 1936 em que foi impresso, o tipógrafo, que trabalhava sem ir a casa há três dias, mudou o título decidido por Pavese , Morrer Cansa (Morire Stanca), para Trabalhar Cansa ( Lavorare Stanca). O escritor, recuperando de uma tremenda gripe, só observou o erro depois de toda a edição estar impressa e já se encontrar disponível comercialmente em algumas livrarias. É espantoso notar como um simples título pode construir todo um corpo poético único- foi o que a versão mudada fez por Cesare Pavese, firmando-o poeta ímpar e inquietante no panorama das letras italianas do século XX. Pavese foi sobretudo conhecido por este volume - apesar de à época do lançamento, não ser um anónimo no mundo literário italiano, à conta de ensaios sobre poesia norte-americana - e pelo seu diário Ofício de Viver - considerado fechado pelo autor cerca de uma semana antes da morte, e por ele próprio assinalado pelas balizas cronológicas 1935-1950, constitui, assim, a evidência da trágica decisão consciente e antecipadamente tomada - , novamente tal como o título anterior ligando atenção com o esforço no acto da escrita) . Cesare Pavese (1908-1950) nasceu em Santo Stefano Belbo, vivendo depois em Turim, onde estudou e se formou em letras. Tendo se dedicado ao ensino, trabalhou também na editora Einaudi, da qual se tornaria o principal colaborador. Nos seus livros a ideia mítica da infância e a nostalgia das colinas e das pessoas do Piemonte natal, servem de contraponto à sua solidão e ao sentido do vazio da existência, que, talvez associados também ao fracasso das suas relações amorosas, acabam por o conduzir ao suicídio em 1950, quando tinha apenas 42 anos. Além de poesia ( Trabalhar Cansa , 1936), escreveu vários romances, - O Camarada (1947), distinguido com o prémio Salento; La bella estate (1949) arrecadando o importante Strega; A Lua e as Fogueiras (1950), considerado a sua melhor obra - e livros de contos, como Férias de Agosto (1946).
Em Portugal estão editados Trabalhar Cansa, Livros Cotovia ; Ofício de Viver , Relógio d´Água; Diálogos com Leucó, Assírio & Alvim; Férias de Agosto, Edições Quasi.
Em Itália , a editora Einaudi, casa onde Pavese trabalhou alguns anos, publicou um volume de cartas de trabalho a colegas da Einaudi e a escritores.
A literatura de Pavese está ensopada de reflexões sobre a solidão, mas também acerca da família, sexo, amor e, principalmente, morte. O seu diário é espelho do lado trágico da vida que sempre perseguiu. Definiu o suicídio como um homicídio tímido mas isso não o travou de dar-se à morte por meio de barbitúricos, aos 41 anos, num quarto de hotel de Turim.
Deixo-vos um vislumbre da Ars Poetica Pavesiana :

Mania da Solidão

Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa está isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.

A noite importa pouco. O rectângulo de céu
sussurra-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.

Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'
Tradução de Carlos Leite,
Livros Cotovia




terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Henrik Ibsen, porque Shakespeare está muito longe

Quem diz que gosta de ir ao teatro e nunca viu em cena uma peça de Henrik Ibsen, está claramente a rematar ao poste no que diz respeito às Artes do Espectáculo. Independentemente da importância de que se reveste o dramaturgo norueguês, por ser considerado o “pai” do teatro moderno, a verdade é que, mesmo que tal não funcionasse desta forma, o seu nome seria indubitavelmente uma referência no teatro. Na verdade, dificilmente encontramos textos tão ricos, complexos e cruelmente nus como os que compõem a obra de Ibsen.
Assim, partilho convosco duas peças de Ibsen (mas sem estragar as surpresas), A Casa da Boneca (1879) e Hedda Gabler (1890) – retratos fiéis da posição da mulher num mundo criado por e para homens. Feminista? Nada disso, pelo contrário. Ibsen descreve de modo realista o funcionamento de uma família no seio de uma sociedade moralista, onde a família e o casamento não surgem como valores, mas como imposições (isto sem nunca mostrar simpatia pelas protagonistas). Mas estes são apenas os pontos de partida. Na verdade, o que Ibsen explora é a consciência e a personalidade de cada um, recorrendo a duas mulheres distintas – Nora (A Casa da Boneca), a mãe de família e ingénua; e Hedda (Hedda Gabler), emocionalmente estéril e manipuladora. Embora as acções sejam conduzidas de forma cuidada e distinta (porque os desfechos são opostos), as duas peças acabam por reflectir o desejo do indivíduo se encontrar a si mesmo e da consciência e poder de decisão de cada um.
Ibsen encerra as peças de um modo inversamente curioso: em A Casa da Boneca, a porta fecha-se, significando que um mundo novo se abre para Nora. Em Hedda Gabler, uma cortina abre-se para revelar o trágico destino de Hedda, um mundo que já não existe.
As peças terminam sem morais, porque é assim que Ibsen vê as coisas, e não será assim que elas são mesmo? O corte com a moral vitoriana do século XIX permitiu a Ibsen explorar dramas psicológicos mais intensos, sem chegar necessariamente a uma conclusão, tornando-se quase existencialista (característica que Tchekhov, sob a influência de Ibsen vai explorar de forma mais aguçada), lembrando sempre que o passado tem um peso determinante nas nossas acções.
A linguagem fria, própria do Norte, adorna as suas peças de um poder linguístico que me parece só ressuscitado pelo teatro contemporâneo. Merece o nosso respeito, merece ser lido se não puder ser visto em palco. É o autor mais representado a seguir a Shakespeare.

Para uma descoberta inicial, recomendo um dos quatro volumes dedicados a Ibsen, publicados pela Cotovia. Esses ou as Four Major Plays, da Oxford University Press, que inclui A Casa da Boneca, Espectros, Hedda Gabler e O Construtor Solness.

domingo, 7 de Setembro de 2008

Max Richter - As Casas da Partida

Prestes a ser lançado 24 postcards in full colour, onde o compositor alemão (a viver no Reino Unido) , compõe vinte e quatro miniaturas musicais para ringtones, uma vez mais adensando a exploração da ideia-base da sua visão " provocar o máximo de sensações com o mínimo de sons possíveis" , Max assegura ser dos compositores de música clássica contemporânea mais rebeldes e visionários, numa discografia recheada de momentos de rara e comovente beleza e competência, em que se promove o encontro perfeito entre a memória e o futuro, entre a música clássica e os microrganismos digitais mais vanguardistas, baptizando esse olhar singular de post-classical.
A escutar o início da viagem , Memoryhouse, 2003 ; depois Songs from the Blue Notebooks, 2004 , no qual a actriz Tilda Swinton (presente n´ A Praia , Vanilla Sky , Constantine) , lê passagens de textos de Franz Kafka e Czeslaw Milosz sob delicadas melodias para piano e violinos, debaixo do barulho incessante de uma máquina de escrever; parando em Songs from Before, 2006, onde o prodigioso Robert Wyatt narra passagens de Haruki Murakami.
A Max, ouvinte devoto de Steve reich, Brian Eno, Arvo Part, Philip Glass, mas também de Autechre, Mogwai, entre outros, interessa a ponte entre a tradição e a visão futurista, a imagem literária e a imagem cinematográfica. Escutado cada trabalho, conclui-se que há um filme encravado em cada apontamento sonoro .
Mudando-se ainda jovem com a família, do país natal para terras de sua majestade, iniciou-se, por influência familiar, no estudo e na prática dos grandes vultos da música erudita, estudou em Itália composição com Luciano Berio e co-fundou Piano-Circus, a princípio com o único propósito de tocar peças de Reich, Part etc, numa galeria de arte, propósito que se estendeu por 10 anos de carreira. Trabalhou também com os Future Sound of London no disco Dead Cities e com Izness.
Ao longo da sua actividade discográfica e trabalhos para outras áreas do pensamento artístico
(cinema, ballet), o compositor/programador/produtor (colaborou com Vashti Bunyan no retorno discográfico da cantautora londrina de Just Another Diammond Day, em Lookaftering, de 2005) tem lenta e pacientemente desmontado o preconceito ainda resistente entre o academismo da suas referências iniciais e as sonoridades left-field mais estimulantes. Serve como sublinhado o mais recente 24... em que o músico aborda o mundo cerebral e descartável dos telemóveis com uma sensiblidade antiga pontuada por miniaturas de paisagens sonoras cinemáticas, fazendo uso de instrumentos clássicos e sombras maquinais, em que um narrador conta a história de uma viagem por 24 cidades em formato postal.

Saber mais :

sábado, 6 de Setembro de 2008

Ela

Stella. 24 anos. Finalista de Estudos Artísticos.
Obcecada pela Tabela Periódica dos Elementos.
E por caixas e postais. E por manuscritos.
O Expressionismo Abstracto é o movimento de eleição.
Jackson Pollock, o pintor.
António Lobo Antunes, o escritor.
Marina Abramović, a performer.
Polly Chandler, a fotógrafa.
Wong Kar-Wai, o realizador.
Tool, a banda.
E centenas de artistas com que esbarro todos os dias. Tenho os olhos abertos.

sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Ele

Ele . 30 anos . Futuro tradutor . Obcecado por matrioshkas.
E também por mochos e poetas.
Não sente preferência por nenhuma escola artística.
Fitas, Tarkovsky.
Telas, Egon Schiele.
Ficções, Franz Kafka.
Poesias, Sebastião Alba.
Fotografias, André Kertész.
Esculturas , Giacometti.
Músicas , Tom Waits.
Movido por uma curiosidade indomável.
Mudo de casa todos os dias.