Virá a morte e terá os teus olhos / esta morte que nos acompanha/ da manhã à noite, insone,/ surda, como um velho remorso/ ou um vício absurdo (...)Assim começou Cesare Pavese o poema-título de Virá a morte e terá os teus olhos, obra formada de poemas breves, inspirados no amor infeliz do poeta pela actriz norte americana Constance Dowling e a ela dedicados; actriz que quando informada da morte do escritor, perguntou "Era escritor?". No ano transacto comemorou-se, por via de iniciativas de vária ordem, um pouco por todo o lado literato, blogosfera nacional incluída, através de não só mas sobretudo do excelente esforço de divulgação por Pedro Mexia , o centenário sobre a morte do poeta nado na província de Langhe, Santo Stefano Belbo, em Turim. O livro de que foram extraídos estes versos ficou mundialmente conhecido e aclamado como um dos grandes livros da poesia do século. XX, com o título Lavorare Stanca ( Trabalhar Cansa). Um título que foi justamente considerado por muitos um dos mais marcantes do escritor italiano. No entanto, a maioria dos seus leitores desconhece um detalhe que se lhe prende. O facto de, na madrugada de um dia em Fevereiro de 1936 em que foi impresso, o tipógrafo, que trabalhava sem ir a casa há três dias, mudou o título decidido por Pavese , Morrer Cansa (Morire Stanca), para Trabalhar Cansa ( Lavorare Stanca). O escritor, recuperando de uma tremenda gripe, só observou o erro depois de toda a edição estar impressa e já se encontrar disponível comercialmente em algumas livrarias. É espantoso notar como um simples título pode construir todo um corpo poético único- foi o que a versão mudada fez por Cesare Pavese, firmando-o poeta ímpar e inquietante no panorama das letras italianas do século XX. Pavese foi sobretudo conhecido por este volume - apesar de à época do lançamento, não ser um anónimo no mundo literário italiano, à conta de ensaios sobre poesia norte-americana - e pelo seu diário Ofício de Viver - considerado fechado pelo autor cerca de uma semana antes da morte, e por ele próprio assinalado pelas balizas cronológicas 1935-1950, constitui, assim, a evidência da trágica decisão consciente e antecipadamente tomada - , novamente tal como o título anterior ligando atenção com o esforço no acto da escrita) . Cesare Pavese (1908-1950) nasceu em Santo Stefano Belbo, vivendo depois em Turim, onde estudou e se formou em letras. Tendo se dedicado ao ensino, trabalhou também na editora Einaudi, da qual se tornaria o principal colaborador. Nos seus livros a ideia mítica da infância e a nostalgia das colinas e das pessoas do Piemonte natal, servem de contraponto à sua solidão e ao sentido do vazio da existência, que, talvez associados também ao fracasso das suas relações amorosas, acabam por o conduzir ao suicídio em 1950, quando tinha apenas 42 anos. Além de poesia ( Trabalhar Cansa , 1936), escreveu vários romances, - O Camarada (1947), distinguido com o prémio Salento; La bella estate (1949) arrecadando o importante Strega; A Lua e as Fogueiras (1950), considerado a sua melhor obra - e livros de contos, como Férias de Agosto (1946).
Em Portugal estão editados Trabalhar Cansa, Livros Cotovia ; Ofício de Viver , Relógio d´Água; Diálogos com Leucó, Assírio & Alvim; Férias de Agosto, Edições Quasi.
Em Itália , a editora Einaudi, casa onde Pavese trabalhou alguns anos, publicou um volume de cartas de trabalho a colegas da Einaudi e a escritores.
A literatura de Pavese está ensopada de reflexões sobre a solidão, mas também acerca da família, sexo, amor e, principalmente, morte. O seu diário é espelho do lado trágico da vida que sempre perseguiu. Definiu o suicídio como um homicídio tímido mas isso não o travou de dar-se à morte por meio de barbitúricos, aos 41 anos, num quarto de hotel de Turim.
Deixo-vos um vislumbre da Ars Poetica Pavesiana :
Mania da Solidão
Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.
Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.
Cada coisa está isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.
A noite importa pouco. O rectângulo de céu
sussurra-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.
Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'
Tradução de Carlos Leite,
Livros Cotovia